29.1.26

#4335

Podiam extinguir as vírgulas,

que elas dão tanto trabalho

(e tantas vergonhas deixam a nu).

#4334

Primeira volta 

segunda volta, 

já dizia Tom Waits 

a melhor cura para a ressaca 

é a bebedeira.

 

[Ressaca eleitoral, take 10]

28.1.26

A glória perdeu a glória

A glória à solta 

sem freio

livre

e ninguém a apanha.

 

Sinal dos tempos 

– lamenta o idoso 

com morada no Restelo

(lá para os lados

do ministério da defesa).

 

Já não é como dantes 

– fez coro

o odioso mais amado

ajudando-se um ao outro

a conservar a poeira

que enfeita as fatiotas.

 

Dantes

(lá está)

a glória valia mais 

do que o ouro

e as especiarias das colónias.

 

Agora

o ouro está entesourado

a crescer de valor

porque um endemoninhado

espalhou a confusão no globo

sem estar à altura das responsabilidades.

 

Já a glória

coitada

perdeu-se na bolsa do esquecimento

condenada a ser uma atávica lembrança

com paradeiro por determinar.

 

Consta 

que a última vez

que alguém deitou ouvidos na glória

foi quando os Sétima Legião a glosaram.

#4333

A procissão de notáveis

arrisca encurralar o seu procurador.

 

[Ressaca eleitoral, take 9]

27.1.26

A poesia como sinónimo de liberdade

As algemas mordem na pele

submergem a respiração em pesadelos

previnem a poesia 

– oh, a tão perigosa poesia

úbere dos espíritos desamparados

e ao mesmo tempo livres

apaixonadamente livres.

 

Um poema 

é a chave-mestra

que dissolve as algemas.

Agora se percebe

porque há tão pouca gente

a ler poesia.

#4332

Podíamos 

deixar falar 

a liberdade, 

apenas.

 

[Ressaca eleitoral, take 8]

26.1.26

Sofreguidão

Costuro as lágrimas no coldre vazio

deixo às mentiras a gramática do medo

entretido com a prosa luminosa

uma trovoada irradia os seus braços

como um polvo acossado.

 

Tiro à sorte a medida da angústia

saiu um três

– alvíssaras,

a angústia anda despojada sobre a matéria 

o vento cicia um segredo

temos de esperar pela próxima curva do dia

para saber se o segredo se deixa desenroupar.

 

Mal por mal 

os antigos tossicam desconfiança

o mundo tem cores e formas que são punhais

e eles fogem do tempo, fogem

como se por eles falasse o embaixador da vida.

 

A água está muito fria

a lucidez é uma peça ausente na engrenagem

e já dizem, 

por alto, 

que o ocaso não é mentira.

#4331

Estamos 

em carne viva 

– o doce sintoma 

de podermos 

falar as diferenças.

 

[Ressaca eleitoral, take 7]

25.1.26

#4330

A duas voltas, 

para tirar as dúvidas.

 

[Ressaca eleitoral, take 6]

24.1.26

#4329

A amnésia 

disfarçada de ignorância,

ou vice-versa.

 

[Ressaca eleitoral, take 5]

23.1.26

#4328

Talvez se pudesse dizer 

dos processos de intenções 

que são um fascismo disfarçado.

 

[Ressaca eleitoral, take 4]

22.1.26

As flores obrigatórias

As flores deviam ser obrigatórias nas varandas. 

Ou as varandas só não seriam multadas

se tivessem flores abundantes e garridas

como ornato. 

As flores mercadejadas deviam dar direito

a desconto nos impostos. 

Não há lugar melhor

do que um que seja um mosaico de flores. 

#4327

Sitiar consciências 

devia dar direito a pontos negativos 

no cartão de cidadão.

 

[Ressaca eleitoral, take 3]

21.1.26

Remendado

Ontem 

comprei um palácio

feito de baldios e ouro invisível. 

Queria poder dizer que meu era um domínio

mesmo que só fosse suserano

de mim mesmo.

Não contemplo outra hipótese:

se ao domínio meu

viessem a calhar em azar 

(seu)

outros em suserana condição

decretá-lo-ia prescrito por inviabilidade. 

Neste que é o domínio meu

decido sozinho

com um autoritarismo deplorável

ausente sensibilidade pelos outros

(que não existem)

eu, esboço de tirano

que de mim próprio faz sua predileta vítima,

sozinho decido 

(dizia)

sobre a bandeira que não hasteio

as leis por fazer que ficam para memória futura

a dívida que não contraio

as embaixadas que não tenho de inaugurar

os hinos que ficam por conta do olvido

as credenciais que se dispensam da imaginação

e das fronteiras faço frangalhos

sob a égide da guilhotina com serventia única:

abolir 

em corte rasante

todos os simples ensaios torcionários

de privação da vontade

nem que seja um tiro no pé

de ofensa a tudo o que o súbdito

(que coincide com o suserano,

há que insistir na mnemónica)

julgar nefasto

bem que seja uma venda aposta sobre os vícios. 

Antes ser pária 

por uma causa recomendável

nem que o seja apenas 

pela lente por onde olho.

Um dia destes

talvez venda o palácio.

#4326

Fechem os fantasmas 

a sete chaves 

que uma é pouco.

 

[Ressaca eleitoral, take 2]

20.1.26

A ponte servil

A ponte sente que as sílabas batem à porta. 

O crepúsculo enfeita a garganta seca. 

A noite açoita a luz que a quer desmentir. 

No saco dos rejeitados segue a matéria anónima. 

Precisa de cimento para escapar à ruína. 

 

Se ao menos houver uma bênção na chuva

que seja dos nomes que se perdem em becos

e não olham ao medo como gramática da respiração. 

 

As sílabas compõem-se na espera diletante.

À espera de serem a ponte que desfeiteia a orfandade.

#4325

Se um núcleo 

não fosse duro 

não seria núcleo.

 

[Ressaca eleitoral]

19.1.26

Desidentidade

Não sou o medo que cicia no crepúsculo. 

Não sou a metade oculta na submissão. 

Não sou o fantasma futuro dos sonhos. 

Não sou o embaixador de virtudes remediadas. 

Não sou apóstata a não ser pela minha lente. 

Não sou uma admirável força 

terçada nas contrariedades. 

Não sou o sonho que poderia ter sonhado

nem o paradeiro de sonhos avulsos. 

Não sou um promitente de coisa alguma. 

Não sou a boca temerária 

que se ajoelha às vozes dominantes. 

Não sou mentira de mim mesmo 

na medição das fragilidades. 

Não sou penhor de nada que me possa penhorar. 

Não sou o asceta que se exila dos sobressaltos. 

Não sou o sangue domado 

pelas paredes íngremes do idioma vulgar. 

Não sou a medida fora de mim. 

Não sou coleção de lugares não demandados. 

Não sei ao certo o que serei

a não ser tudo aquilo

e mais ainda

o que sei não ser.

#4324

O sal também tem flor. 

O dia perde a máscara dos timoratos.

18.1.26

#4323

Abotoada a inveja, 

se possível for, 

para encantar 

a forma descamisada de ser.

17.1.26

#4322

Os dedos matraqueiam palavras surdas 

do que ficou por dizer 

e do silenciado por diplomacia.

16.1.26

Neptuno

Toco por dentro o céu. 

Cobro aos demónios as tempestades viris. 

Do dicionário açambarco as palavras lúdicas

como se a vertigem não participasse

do precipício constante

e perdêssemos o paradeiro da lucidez. 

Somos as asas que descem e sobem

decifrando paisagens singulares. 

Tornamos a noite 

na fogueira que adormece a pele. 

Não deitamos fora o silêncio:

é na sua gramática que escondemos

as estrofes de que somos tutores. 

No céu tocado

o achado de uma quimera

um domínio que vale mais 

do que mil reinos.

#4321

Da roda viva 

não sejam depreciativos: 

o que dirão 

quando morta for?

15.1.26

Injustiças documentadas (629)

O passado 

não tem 

futuro.

#4320

O vício 

não precisa de comício 

para ser um estropício.

14.1.26

#4319

Vejo que veem que o rei vai nu; 

neste complexo palco de sombras 

ainda bem que não é monarquia. 

13.1.26

Como esconder um telhado de vidro

Dedico a indulgência 

aos patronos da leviandade. 

Sem eles 

seria apenas 

uma promessa do passado 

e não quero 

que saibam das promessas 

que deixei por abastecer.

#4318

Um abalo sísmico 

não extingue 

a cortesia.

12.1.26

Apogeu

Dadas, 

as mãos que sentem a pele a latejar

na dádiva sublime que cura do tempo tirano.

Por fora de nós 

pende o suor da nossa respiração 

e à boca legamos as palavras uníssonas.

Somos o leve habitar das sílabas 

que voam sobre o estuário

enquanto vigiamos o entardecer.

#4317

É no cortejo dos párias

que te vou encontrar?